Meu pai confiava em mim. Mas eu não era fácil. Não era terrível, mas contra fatos e histórias não há como divergir. As que mais me lembro são aquelas que deixaram marcas por causa do sofrimento causado por minha desobediência. Uma das que mais me lembro foi quando meus pais saíram de casa e me disseram que não queriam ninguém fora de casa. Confiavam em mim, em meus irmãos, saíram por que confiavam em nós. Entretanto, eu e meus irmãos fomos então tentados e convencidos a sair de casa para brincar com a gurizada da vizinhança. Morávamos no paraíso. Tínhamos milhares de coleguinhas em Olinda, em Bairro Novo, numa bela casa a beira do mar. Neste ambiente era quase impossível ficar dentro de casa, sinceramente era difícil obedecer qualquer pessoa, até meu pai. Fui com meus irmãos brincar de pega com a meninada. Corríamos no terreno da casa de um vizinho, pulávamos muros correndo para escapar daqueles que nos perseguiam. Era muito divertido. Numa destas fugas, subi o muro de minha casa e quando o menino estava bem pertinho, pulei para casa vizinha. O muro era alto, mas nada me impedia de fazer tal travessura. Porém, como era noite, tudo bem escuro, do alto do muro, não vi que havia uma corda de varal na casa do meu vizinho. Ao saltar em pé, atingi a corda que bem firme fez-me virar como alguém que tropeça correndo, fazendo-me cair de cara no chão. Para evitar a morte, instintivamente coloquei os dois braços na frente do meu rosto. Nesta noite, arrebentei meu queixo, e quebrei os dois braços na altura dos punhos. Chorei muito. Todas as crianças se desesperaram. Meus irmãos me levaram para casa. Eu chorava por ver meus braços doendo e tremendo. Esperamos meu pai e minha mãe chegar. Fiquei no quarto chorando; não sei se chorava mais pela dor ou pelo medo de ter desobedecido. Meu pai chegou, ouvi seus passos. Ele entrou no quarto perguntou o que houve e me levou ao hospital imediatamente. Tinha realmente quebrado os dois braços. Não me lembro dele gritar ou brigar comigo. Apenas cuidou de mim. Lembro-me que todos achavam graça daquele individuo pequeno com ambos braços engessados. Lembro-me bem que fui para nossa igreja, a Primeira Igreja Batista em Recife, cujo pastor era meu tio Hélio Vidal de Freitas. Lá todos perguntavam o que houve, riscavam os gessos com seus nomes, com mensagens engraçadas e muito amor, e lá, durante o culto, meu tio me chamou para orar e agradecer a Deus por eu estar bem. Fui lá na frente, todos riam e se alegravam de tal situação, agradecidos e alegres por não ter ocorrido algo mais grave. Meu tio, meu pastor orou por mim e meus pais me abraçaram. Naqueles dias vi o Pai do meus braços quebrados pela primeira vez. Quebrei durante estes anos a cabeça com decisões erradas e escolhas difíceis. Fui desobediente e quebrei minhas pernas, meu coração, meu espírito em diversas oportunidades. Em cada uma delas, O Senhor, nosso Deus, esteve presente, me corrigiu, me consertou e cuidou de mim. No livro de Moody, Pensamentos para hora tranquila, ele diz que: “aquele, pois que está de pé, olhe que não caia. (I Corintios 10.12) – Anjos caíram no céu; Adão, no paraíso; Pedro, na presença de Cristo” . Entendo que meu pai esta comigo quando eu caio. Que ele se entristece quando desobedeço, tropeço, peco, vacilo e decepciono, mas todas às vezes, Deus cuida de mim. E sei que o melhor é estar de pé, caminhar com a cabeça erguida, ver o Pai sorridente e feliz. Melhor é ser aprovado. Louvo e adoro a Deus pelo meu pai que cuidou de minhas feridas, que limpou meu rosto sujo, que retirou da minha face todos os vestígios daquela dolorosa queda. Queria pedir depois de quase 30 anos perdão por tê-lo desobedecido. Mas, sei que ele me perdoou e me amou a ponto de apresentar o Pai que: cura todas as minhas feridas, limpa meu rosto doente, sara minhas alma, perdoou toda minha desobediência e consertou meus ossos. Naqueles dias meus braços estavam quebrados, mas meu pai cuidava de mim. Hoje meus ossos, minha carne, minha alma e meu espírito anseiam a sua presença de Deus. Obrigado por cuidar de mim, Pai dos meus braços quebrados. Não quero mais te desobedecer. Se no Paraíso, no Céu e na presença de Deus alguns caíram, peço diariamente ao Pai: Conserta-me. Sustenta-me, levanta-me e perdoa-me. MOODY, D. L. Pensamentos para a hora tranquila. Rio de Janeiro, CPAD, 1995. p. 62.