A Face do Pai da Bíblia de Minha Mãe

Minha mãe estava em Brasília. Ela passava alguns dias com meu irmão mais velho, meu mano Dado e sua esposa Vanessa. A última noite foi bastante alegre. Ela tinha passado dificuldades naqueles dias, estava fraca e teve que até ir ao hospital, entretanto ela curtia muito estar com seus filhos. Saíram para comprar um sapato para ela. Eles voltaram e ficaram até tarde conversando. Dado, me disse que ela contou várias piadas, eles riram muito, ela estava feliz. Foi dormir. Meu mano acordou, foi vê-la pela manhã no quarto e a encontrou seu corpinho estendido na cama. Que encontro difícil, que momento inenarrável que dia sem palavras, palavras sem dia. Nossa mãe fora aos braços do Pai apenas um ano após meu pai. Estavam com saudades alguém diria. Particularmente, e no silêncio de meu livro, eu digo a mesma coisa. Rubem Alves em seu site a Casa de Rubem Alves, tem um artigo chamado O Panelaço que começa assim: Bachelard observou que “a lembrança pura não tem data. Tem uma estação. É a estação que constitui a marca fundamental das lembranças. Que sol ou que vento fazia nesse dia memorável?”. Que estação mais dolorosa foi aquela? Verão de nossas vidas, outono de folhas caídas, inverno de nossas almas, ou seria outra estação? Primavera não parecia ser, não havia flores, apesar do Beija-flor; verão tão pouco era, pois o sol escurecera nas lembranças, naquela estação. Parecia mais o inverno de nossas vidas e outono de nossas quedas. Minha mãe não estava mais conosco.

Pedi a meus irmãos que me dessem a Bíblia dela. Cheia de anotações de anos e anos, sua Bíblia era um tesouro dos céus para mim. Fiquei entusiasmado pela possibilidade de ler a Bíblia a partir das anotações de minha mãe. E ela maravilhosamente me conduziu a melhor estação. Sua fé trouxe o consolo necessário e a palavra de fé e certeza. Não era surpresa para ninguém a certeza da salvação que minha amada mãe possuía. Mas, em sua Bíblia encontrei a seguinte anotação, logo na primeira página: “Se amanhã eu acordar, Deus estará comigo; Se não acordar, eu estarei com Ele”. Que presente maravilhoso minha mãe deixou para mim. Ela não acordou, mas naquela manhã ela viu o Pai da Bíblia de minha mãe face a face. Qual a certeza que tens que acordarás amanhã? Nenhuma. Nestes últimos dias vários amigos e conhecidos acometidos por problemas cardíacos faleceram. Um destes o Elias, vendedor de produtos Parmalat, nos visitou com um chapéu engraçado. Brinquei com ele sobre o chapéu, ele me respondeu que estava usando-o por causa do frio na cabeça careca. Rimos muito. Um dia depois ele partiu para os braços do Pai. Um chapéu, uma brincadeira, muitos risos, piadas, alegria e morte. Cada dia mais eu entendo o Beija-flor. Na minha Bíblia, em minha fé, em meu coração e em meu corpo estarão, além das marcas de Cristo, meu salvador, a frase da Bíblia de minha mãe: “Se amanhã eu acordar, Deus estará comigo; Se não acordar, eu estarei com Ele”.

Meus pais não estão mais aqui comigo, eles estão com Deus.

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu unigênito Filho para que todo aquele que crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3.16).